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segunda-feira, 9 de junho de 2014
METÁFORA DE NOSSA SOCIEDADE
CANIBAL
Moacyr Scliar
Em 1950, duas
moças sobrevoaram os desolados altiplanos da Bolívia. O avião, um Piper, era pilotado por Bárbara; bela mulher, alta e loira, casada com
um rico fazendeiro de Mato Grosso. Sua companheira, Angelina, apresentava-se como
uma criatura esguia e escura, de grandes olhos assustados. As duas eram irmãs
de criação.
O
sol declinava no horizonte, quando o avião teve uma pane. Manobrando
desesperadamente, Bárbara conseguiu fazer uma aterrissagem forçada num platô. O
avião, porém, ficou completamente destruído, e as duas mulheres encontravam-se,
completamente sós, a milhares de quilômetros da vila mais
próxima. Felizmente (e talvez prevendo esta eventualidade), Bárbara trazia
consigo um grande baú, contendo os mais diversos víveres: rum Bacardi,
anchovas, castanhas-do-pará, caviar do Mar Negro, morangos, rins grelhados,
compota de abacaxi, queijo-de-minas, vidros de vitaminas. Esta mala estava
intacta.
Na manhã
seguinte, Angelina teve fome. Pediu a Bárbara que lhe fornecesse um pouco de
comida. Bárbara fez-lhe ver que não podia concordar; os víveres pertenciam a
ela, Bárbara, e não a Angelina. Resignada, Angelina afastou-se, à procura de
frutos ou raízes. Nada encontrou; a região era completamente árida. Assim,
naquele dia ela nada comeu. Nem nos três dias subseqüentes. Bárbara, ao
contrário, engordada a olhos vistos, talvez pela inatividade, uma vez que
contentava-se em ficar deitada, comendo e esperando que o socorro aparecesse.
Angelina, pelo contrário, caminhava de um lado para outro, chorando e
lamentando-se, o que só contribuía para aumentar suas necessidades calóricas.
No quarto
dia, enquanto Bárbara almoçava, Angelina aproximou-se dela, com uma faca na
mão. Curiosa, Bárbara parou de mastigar a coxinha de galinha, e ficou
observando a outra, que estava parada, completamente imóvel. De repente
Angelina colocou a mão esquerda sobre uma pedra e de um golpe decepou o seu
terceiro dedo. O sangue jorrou. Angelina levou a mão à boca e sugou o próprio
sangue. Como a hemorragia não cessasse, Bárbara fez um torniquete e
aplicou-o à raiz do dedo. Em poucos minutos, o sangue parou de correr. Angelina
apanhou o dedo do chão, limpou-o e devorou-o até os ossinhos. A unha, jogou-a
fora, porque em criança tinham-lhe proibido roer unhas – feio vício.
Bárbara
observou-a em silêncio. Quando Angelina terminou de comer, pediu-lhe uma
falange; quebrou-a, e com a lasca, palitou os dentes. Depois ficaram
conversando, lembrando cenas da infância etc.
Nos dias seguintes, Angelina comeu os dedos das
mãos, depois os dos pés. Seguiram-se as pernas e as coxas.
Bárbara ajudava-a a preparar as refeições,
aplicando torniquetes, ensinando como aproveitar o tutano dos ossos etc.
No décimo
quinto dia, Angelina viu-se obrigada a abrir o ventre. O primeiro órgão que
extraiu foi o fígado. Como estava com muita fome, devorou-o cru, apesar dos
avisos de Bárbara, para que fritasse primeiro. Como resultado, ao fim da
refeição, continuava com fome. Pediu à Bárbara um pedaço de pão para passar no
molhinho.
Bárbara negou-se a atender o pedido, relembrando as
ponderações já feitas.
Depois do
baço e dos ovários, Angelina passou ao intestino grosso, onde teve uma
desagradável surpresa; além das fezes (achado habitual neste órgão), encontrou,
na porção terminal, um grande tumor. Bárbara observou que era por isto que a
outra não vinha se sentindo bem há meses. Angelina concordou, acrescentando: “É
pena que eu tenha descoberto isto só agora.” Depois, perguntou à Bárbara se
faria mal comer o câncer. Bárbara aconselhou-a a jogar fora esta porção, que já
estava até meio apodrecida; lembrou os preceitos higiênicos que devem ser
mantidos sempre, em qualquer situação.
No vigésimo dia,
Angelina expirou; e foi no dia seguinte que a equipe de salvamento chegou ao
altiplano. Ao verem o cadáver semidestruído, perguntaram a Bárbara o que tinha
acontecido; e a moça, visando preservar intacta a reputação da irmã, mentiu
pela primeira vez em sua vida:
- Foram os índios.
Os jornais
noticiaram a existência de índios antropófagos na Bolívia, o que não
corresponde à realidade.
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